
Digo isto nas minhas palestras. Escrevo isto para vocês. E talvez alguns até oiçam. E talvez alguns até leiam. Mas são poucos os que mudam o que está errado nas suas vidas sem serem atropelados em primeiro lugar.
Talvez tenha de ser assim – talvez tenhamos de viver as coisas, experienciar, sentir na pele para mudar. Comigo foi assim (eu sou casmurra, por isso, não sou exemplo para ninguém e só aprendo à porrada) mas contigo… contigo pode ser diferente.
Não precises do cancro para nada.
Não precises que te caia o mundo, como me caiu, não precises de perder, como perdi, não precises de apanhar o susto da tua vida para valorizar, não precises de partir uma perna para te apetecer correr.
Mas talvez funcionemos todos assim. Será? Somos tão presunçosos que só acreditamos naquilo que vemos, somos tão prepotentes que ainda achamos que vivemos para sempre. Mas não vivemos. A saúde, tão volátil, tão adorada só quando não está, a família tão preciosa, só sentida quando se ausenta.
Não tem de ser assim. Não precisas de viver na pele todas as dores que existem para fazeres escolhas melhores. Por isso é que partilhamos, contamos, dizemos uns aos outros aquilo que vivemos, na esperança que os que ouvem, façam escolhas ainda melhores que as nossas!
Se eu soubesse o que sei hoje!”, gritamos, em uníssono, alguma vez na nossa vida. E eu digo-te: vive. Vive a sério. Escolhe o que te faz bem, sem medo. Se não aprendermos nada uns com os outros, se não atalharmos por outro caminho porque aquele já se mostrou perigoso, se não crescermos em empatia, se não nos identificarmos ao ponto de assumirmos que “já sei porque já vi” então somos todos surdos e moucos porque queremos. Porque sim.
Não chega acenar com a cabeça a este texto. Para depois voltarmos surdos, moucos e com falta de memória aos velhos hábitos.
Não precises do cancro para nada.
Marine Antunes – escritora
Blogue: www.cancrocomhumor.wordpress.com