Cancro com Humor

Serei sempre um bocadinho paranóica. Boa tarde.

Anúncios

Sou boa cachopa, sou sim senhor, tenho a minha vidinha bem resolvida, tenho pois, mas nunca disse que a caixa funcionava perfeitamente, sem enganos e gaguejos. Disto, não nos explicam nas consultas mas ficava mais descansada se me tivessem avisado – “Marine, segue lá o teu percurso que está tudo bem mas … ah! Não te esqueças que serás sempre um bocadinho paranóica. E está tudo certo”.

E isto é coisa para avisar uma pessoa porque andamos nós a ver os descontos do mês no supermercado, quando nos dá uma dor na perna, vinda do nada e começamos logo a fazer o nosso filme com protagonistas e figurantes  – a dor da perna passa para a anca, da anca para o tronco e enquanto temos o saco do Lidl na mão, na nossa cabeça já se ouvem sirenes para nos virem buscar – porque de repente, a dor inexplicável é um monte de coisas com nomes complicados.

Gostava que me tivessem avisado que nunca mais ouviria falar de sintomas sem me arrepiar, que não poderia ver o engelhar de um nariz de um médico sem um acompanhamento de taquicardias, que a cada tosse, comichão ou mesmo espirro tivesse uma insensata vontade de procurar respostas no google. Alguém me deveria ter dito que a mente ficará sempre desperta, acordada, sobressaltada no inverno e a cada consulta anual. Alguém me deveria ter dito que nunca mais seria normal, porque isso sim já não me assustava.

“Marine, essa cabecinha vai inventar alguma coisa a cada trimestre, porque serás sempre um bocadinho paranóica. E está tudo certo”.

Alguém me deveria ter dito que a ansiedade se trabalha, devagarinho e regularmente, que o corpo reage aos pensamentos e que viver o presente, sem medo do futuro é bem diferente do que ter medo de projetar. Ando a aprender estas coisas sozinha, mas alguém poderia avisar.

Aviso eu.

Anúncios

Anúncios