
As coisas têm acontecido imprevisivelmente. E têm corrido bem. Tenho adorado a novidade dos meus dias, dos convites e dos projetos que surgem sem esperar, porque depois mantenho outros hábitos numa amada e desejada monotonia – pequeno-almoço ao domingo, no mesmo sítio de sempre, amor no mesmo coração de sempre.
Esta semana, apesar de estar feliz com as coisas que me estão a acontecer, entrei em histerismo emocional (acabo de inventar este termo mas parece-me ótimo). Com as novidades a chegarem, a agenda a ficar completa, a rotina a ser alterada, a felicidade começou a consumir-me por dentro e o medo a crescer, porque a felicidade desmedida assusta. Conheces esta sensação?
Confesso que me senti estúpida por saber que a minha felicidade estava a estragar tudo – isto faz algum sentido? A felicidade ser o motivo de tamanho esmagamento? Percebi isso, porque comecei a falar muito depressa, a telefonar a toda a gente, a exagerar nos gestos, no tom de voz, em tudo. O Tiago, que me conhece como ninguém, só dizia: “Respira fundo, vais colapsar assim”. E eu, no meu estado extremo, respondia calminha, como um cordeirinho: “ESTOU ÓPTIMA!!”
Para nós, a única solução estava à vista: pegámos no meu histerismo nervoso, fomos até à praia para que o mar me acalmasse e a água gelada nos pés, me ajudasse a sentir o meu corpo de novo. Ouvir as ondas, tocar na areia, ficar na praia até o sol se despedir, tornou a minha respiração regular de novo. O meu histerismo nervoso acalmou, mas a felicidade não. Apenas não deixei que engolisse o meu coração outra vez (caraças, como é incrível a nossa capacidade de mudarmos o nosso estado de espírito se alterarmos um pequeno comportamento ou contexto).
Mesmo estando melhor, não parei de me perguntar: a felicidade pode fazer-nos colapsar? O melhor que nos acontece, pode fazer-nos mal? Pode magoar-nos?
Acho que é o reverso da moeda, uma face que não se vê sem a outra. O medo e a felicidade andarão sempre de mãos dadas. É preciso usufruir do momento sem grande apego, sem que o medo de perder seja maior do que a felicidade de viver o que nos está destinado. Mas como é que se faz isso? Só a praia é que me pode salvar?
Claro que não. Acho que a praia não chega. Todos os oceanos não chegam para me limpar do medo, da angústia de falhar – preciso de ser a primeira a proteger-me da minha ansiedade. Da minha exagerada forma de sentir tudo. Não quero ficar exausta só por me sentir feliz. Não quero que as coisas boas sejam demasiado para mim. Quero saber que as mereço e que as posso viver, porque o melhor do mundo não é demasiado. É o justo.
Talvez tudo isto tenha só a ver com sabermos se merecemos ou não, as maravilhas dos nossos dias. Talvez seja essa a nossa luta, trabalhar o merecimento, merecer sem culpa.
De qualquer forma, ainda bem que tenho o mar do meu lado. E o Tiago também. Ainda bem que tenho quem me ajude a respirar de novo, quando o meu corpo se torna demasiado pesado. Ainda bem que eles me lembram que mereço. Ainda bem que gostam de mim mesmo quando o meu histerismo nervoso me transforma numa barata virada de barriga para cima, com as perninhas malucas a abanar rapidamente.
Ainda bem.
Marine Antunes