Queridos Carequinhas:
Nem estou em mim. Nem sei como começar a explicar o que sinto se, o que sinto, é de discrição impossível. Hoje fechou-se um ciclo, hoje ganhei uma tranquilidade e hoje os meus pesadelos, já crónicos há dez anos, acalmaram. Por onde é que começo?
Há pessoas que nos marcam mais, talvez, do que nós as marcamos a elas e por uma quantidade de razões. A Ana Luísa, teve um impacto brutal na minha vida e certamente ela nem sabe disso. Quando fiquei internada pela primeira vez e, sem saber o que se passava comigo, conheci a Ana, uma menina da minha idade com leucemia, que já lá estava há algum tempo e com quem ficaria a partilhar quarto. Foi a primeira criança que conheci com cancro, a primeira com quem partilhei um cancro e a primeira que me explicou, com os seus próprios conceitos, o que me iria acontecer. Despachada, divertida e, a maior imagem que tenho dela, corajosa, disse-me que eu ficaria sem cabelo e para não me entusiasmar muito com as visitas, porque elas apareciam muito no inicio mas que depois se esqueciam de nós. Passei a adorá-la. Já naquele tempo, venerava a frontalidade e a capacidade de dizermos aos outros não o que eles queriam ouvir, mas o que era preciso ser dito. Sensível, percebeu que tinha ficado nervosa com as explicações um quanto bruscas dela e, descansou-me a alma, dizendo, que olhando para mim assim de repente, parecia que eu até não iria sofrer muito.
A Ana falava e eu ouvia (estranho, certo!?) mas quando encontramos pessoas que nos fascinam, preferimos absorver o que dali sai, do que dizer o que quer que seja. A Ana já estava internada há muito tempo, não ia tantas vezes a casa quanto eu e, quando foi, chorou emocionada porque “nem acreditava” que iria sair dali. Todos os enfermeiros conversavam com ela, não era anti-social como eu e, imagine-se, tinhas amigos em todos os quartos. Desenrascada, foi a doente que eu gostava de ter sido, implacável e guerreira. E agora, vocês perguntam, como perdi eu o contacto de alguém que admirava tanto?
Medo. Quando soube da morte de outros companheiros, decidi que não queria saber mais de nenhuma morte e deixei de visitar a Ana e os outros doentes que ainda estavam internados. Decidi que jamais aceitaria a morte de uma guerreia como a Ana, por isso, na minha cabeça, ela estaria sempre viva e saudável. Dez anos depois, a vida deu-me uma nova oportunidade de perceber que os medos impedem que vivamos grandes momentos, dez anos depois, através do Cancro com Humor, encontrei a Ana! Lembrava-se do meu diário e eu nem consigo explicar como estou grata e feliz por ela estar viva, gira e saudável. Há coisas boas, neste mundo tão cruel. Há coisas boas e hoje sinto que os meus pesadelos irão acalmar porque a Ana está bem e não só no meu coração.
Marine Antunes
Que bom, Marine! Nesta caminhada comum a todos nós, há coisas boas e significativas que nos aparecem no caminho. Uma delas é o conhecer novas pessoas que nos tocam particularmente e que se não fosse o nosso cancro nunca teríamos conhecido! A tais pessoas costumo chamar-lhes as “rosas que nasceram dos espinhos”!
Marine, você teve hoje uma demonstração de algo que faz parte de todo nós, mas que a maioria de nós não sabe ou não se apercebe. Estou a falar do facto de que quando fazemos algo, com empenho, dedicação e entrega, os resultados melhores não são os DIRETOS e normalmente ESPERADOS. Os melhores são os que nos chegam em 90º…, e foi o que lhe aconteceu com o facto de ter construído o Cancro com Humor…, quando menos esperava, teve um resultado fantástico em 90º…! Não foi para saber da Ana que criou este projeto, mas foi pelo facto de o ter criado que a Ana chegou de novo até si! Continue…! Acho que ainda vai ter mais surpresas!
Obrigada querido António pelo comentário tão simpático, espero que consigamos todos juntos ter ainda mais motivos para festejar 🙂
Marine, sigo-a há muito pouco tempo, mas tenho visto as suas entrevistas na TV. só digo: uma grande salva de palmas para si, e para pessoas como a Marine, pois o que é preciso, é pessoas com alegria e se for com humor ainda melhor. Receba um grande abraço de uma mulher que a admira daqui até mais além!…
Isabel de Miranda
UAU :=) fico toda babadinha! uma salva de palmas para VOCÊS que estão dispostos a encarar a vida desta forma optimista e feliz! um grande beijinho!
Parabéns Marine!!! Sou uma ex-carequinha e tenho seguido o que publicas….. Posso tratar-te por tu, certo? Tenho 28 anos e tu 23…..lol!!! Adoro a forma como abordas o tema cancro, este bichito tão insignificante!!! Sempre com um sorriso no rosto, foi a forma como o enfrentei e derrotei 😉 Beijinhos e continua…… ❤
Claro que me podes tratar por tu! Obrigadão pelo apoio e pela força! Aparece sempre por cá, ok? Beijoca!