Cancro com humor_ Geral

São os inícios que dizem quem somos depois.

Ontem estivemos em frente da nossa primeira casa. Sabem aquelas pessoas que dizem que não devemos voltar ao sítio onde fomos felizes? Não acredito em nada disso. Não fujo de onde ri, de onde vibrei, onde fiz planos, onde comprei a minha primeira mesa, onde sonhei com a primeira viagem. A vida melhorou, somos ainda mais felizes onde vivemos agora (só o tempo permite que o amor cresça em memória e em história) mas nunca vou deixar de sorrir ao descer as “Escadinhas dos Remédios”, afinal, foi lá o nosso início.

E a primeira janela terá sempre o nosso olhar mais puro.

Todos os inícios têm de ser festejados, relembrados – e esse é o nosso maior problema, a nossa maior carência – esquecemo-nos do nosso início, do nosso princípio, queremos apenas melhorar, evoluir e cobramos a nossa incompetência, gritamos com a nossa fragilidade, como se estivéssemos constantemente a falhar “porque já deveria estar ali!”. E os inícios? E quando não eramos tão duros connosco?  E quando começar era o mais bonito do dia?

Um amigo meu, dizia há pouco tempo, dentro da nossa casa: “nós não tivemos este início. Começámos com muitas vitórias conquistadas” e não o disse orgulhoso, disse-o com pena. Acho que quando se começa pelo meio o esquecimento é maior, a frustração cede mais facilmente porque não se está habituado a tentar. É de início que se começam as vidas e é desse início que não nos podemos afastar para não chegarmos ao fim.

A vida é feito de inícios – onde tudo começa com um amor, uma vontade, uma teimosia, uma mesa, um candeeiro encontrado lá em baixo, um cortinado feito à mão pela mãe, que também dá para ser toalha. É preciso visitar esse início, abraçá-lo e não esquecer que todos os inícios dizem-nos quem somos depois.

 

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Primeira casa ❤

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Cancro com humor_ Geral

O que nos vale é que ter cancro dá-nos ótimas histórias.

Vocês acreditam que andamos por aqui há seis anos? Que o Cancro com Humor nasceu de uma miúda com 23 anos que ainda não sabia passar recibos? Quantos textos, quantas partilhas, quantos desabafos e desmoronamentos por aqui andam? O tempo é mesmo uma medida relativa. Em tantos anos, mesmo depois de tanta coisa escrita e dita, ainda há tanto para fazer. Ainda se morre de doença prolongada; ainda acontecem palestras e eventos onde só se fala de cancro em dor e desespero e se oferecem laços para colocar ao peito ao invés de sorrisos; ainda há gente que “prefere não ir ao médico para não saber”; ainda se esconde a careca no emprego, para não se sofrer de estigma. Mas cá ando. Cá ando até fazer sentido e até me apetecer, parecendo-me a mim que o meu caminho ainda está a meio.

Quando criei o projeto Cancro com Humor achei que tinha tudo para funcionar: em primeiro lugar, já tinha graça eu dizer “cancrrrrrrrro” e isso estaria sempre a meu favor; depois tinha o fator “identificação” e o mais importante, poderia ajudar a desmistificar esta doença e a desconstruir o tabu que carrega. Além disso, tinha acabado de me despedir – o que teria a perder?

Tudo isto nasceu de uma falha, ou melhor, de uma necessidade – quando tive cancro senti mais o peso da palavra do que propriamente o peso do cancro que crescia dentro de mim. A palavra cancro ainda é e era muito mais na altura, pavorosa. As pessoas não diziam a palavra, substituíam-na por outras – doença prolongada, problema, situação complicada, cancro é que não. E isso sempre me chateou. Chateava-me que na minha santa terrinha, viessem ter comigo e me perguntassem: “Como é que está a tua situação?”, supondo que eu soubesse que situação significava cancro.

“Situação, qual situação? A financeira? Ah, essa está pelas horas da morte. A outra, está boa”.

Além de sentir uma falta brutal dessa serenidade ao se falar de cancro – porque o pânico dos outros aumentava o meu pânico – soube desde o início que era uma privilegiada. Por tudo. Por ter visitas no hospital que eram para mim mas davam para mais dois ou três doentes; por ter tanto amor, por os tratamentos resultarem e por ter humor à minha volta. Essa foi a ferramenta da minha família, foi a minha e é a que uso agora para tudo. Só não me vale de nada nas Finanças porque tenho de pagar na mesma – e olhem que já tentei.

Era preciso outra coisa. Precisava de alegria para ter apetite (a tristeza destrói-me o estômago) e precisava de apetite para ter peso suficiente para levar a minha dose de cavalo de quimioterapia. Só o humor me daria isso. O humor ajuda a desconstruir, a relativizar, a tornar mais fácil (e é a única forma de suportarmos os comentários idiotas que fazem à nossa “condição” – olha eu a substituir o cancro tão bem). E além disso, o humor iria ajudar-me a perceber que cancro dá-nos ótimas histórias.

Vivia numa aldeia muito pequenina, onde toda a gente se conhece até à quarta geração, onde não era comum ter cancro ( acho que fui eu que o inaugurei e cortei a fitinha) e havia mais preconceito por metro quadrado do que laranjas nas árvores. Só me poderia safar a rir e mesmo que não me risse no momento, transformava o meu cenário numa série trágico-cómica (as minhas preferidas). Um dia, uma determinada personagem, decidiu visitar-me para me “dar apoio”.

Perguntou-me como estava “o meu coiso” e eu adivinhei que falava do cancro e quando é que eu o “tirava na operação”. Expliquei que era inoperável e foi aí que a personagem delirou em sons, caretas e taquicardias:

“Ui, eia, ehhhhssss, pois, ah não se opera, pois, hum…”

Mas a personagem tinha uma missão: visitar-me. E se tinha ido ali dar-me apoio, era isso exatamente que faria! Então continuou:

“Pois, assim complica, né? É que se fosse no braço, arrancava-se o braço… se fosse na perna, arrancava-se a perna. Sendo assim … vais morreu, né?”

Anuí com a cabeça que sim (nunca se contraria um maluco) e esperei crescer dez anos para me rir disso. 

Assim o fiz.

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Marine Antunes.

Cancro com humor_ Geral

Carta aberta às mães que sentem culpa.

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“Não és mãe, o que sabes tu?” – não sou mãe, é verdade. Não sei (ainda) o que é sentir esse amor e esse pavor mas gosto de acreditar que nos podemos colocar na pele dos outros e entendê-los – é isso que faz um ator, um psicólogo e também um escritor. E nesta minha função de observadora,  tenho-me apercebido que existem mães, talvez a maior parte delas, que sentem constantemente culpa. Culpa por viverem, por sentirem, por quererem.

Nesta última apresentação do livro, uma maravilhosa palhaça (sim, ser palhaça é mais do que uma profissão, é uma missão), partilhou com a plateia um testemunho que me arrepiou: ao trabalhar com as crianças em internamento e as suas mães, apercebeu-se que são as mães quem mais precisam de rir, desanuviar, descansar. Mas como permitiriam as mães que cuidassem delas? Se os filhos fossem a prioridade da intervenção. Então, a palhaça assim o fez – com o intuito de ajudar a descontrair e aliviar a tensão vivida no hospital, levou jogos que envolviam a família inteira mas sempre que as mães brincavam e riam, sentiam culpa em vez de felicidade e escondiam as gargalhadas com aflição, dizendo:

 “Ai que horror, o meu filho não me pode ver assim!”. E é por isso que escrevo esta carta.

Carta aberta às mães que sentem culpa:

“O meu filho não me pode ver assim” – como se fosse possível que a vossa alegria nos pudesse, a nós filhos, melindrar.

Tenho que te dizer, a ti mãe que sentes culpa, que o teu bem-estar nunca o desmotivará. Que o teu sorriso não é afronta, é alívio, que o teu descanso, é o seu descanso, que sempre que ele te vê descontraída, calma, serena, acredita mais um bocadinho que tudo não passará de uma fase. Sabes que nós filhos, medimos a dimensão do problema, consoante a vossa preocupação, certo? Se a mãe está bem, então é porque “é para estar bem”.

Tu, mãe que sentes culpa, tens de saber que a tua alegria traz normalidade aos seus dias, que se brincares com o palhaço que vos visita, o teu filho terá mais vontade de brincar, que se não tiveres sempre triste, ele não tem de se preocupar em animar-te. E dorme melhor depois. Tu mãe, que sentes culpa em ir à rua beber um café, em confiar a outro que olhe por ele, que não te maquilhas porque estás num hospital, que achas que a demonstração da tua dor é sinónimo de cuidado, que te preocupas que te achem leviana, despreocupada, má mãe, tens de saber, que não há nada mais importante e corajoso que a tua alegria e que todos os olhares que te possam fazer de reprovação é só de gente que não entende o verdadeiro significado da palavra amor – amor é fazer bem.

Tu, mãe que sentes culpa, sabemos que a tua prioridade é teu amor maior. Que nunca darás parte fraca e só sairás daí quando o teu filho sair também. Tudo bem. Mas ele quer que saias em passo saudável, não arrastada pelos pés exaustos, ele quer que a vitória seja dos dois e não de um pelo outro, ele não quer sentir culpa pela culpa que carregas. Tu, mãe que sentes culpa, não tenhas medo de rir e fazer rir, ninguém desvaloriza o que sentes mas por favor entende, o humor é o maior ato de amor. A dor tem vários tons, várias cores e no hospital quer-se branca ou neutra, quer-se leve e tranquila porque tudo o resto já é tão difícil.

Tu, mãe que sentes culpa, não é um horror que o teu filho te veja rir e por isso faz-lhe o favor de te amares também um bocadinho.

Marine Antunes

Cancro com humor_ Geral

O pote de ouro ou o copo de água?

Escolher: talvez seja a coisa mais difícil a que estejamos, desde sempre, sujeitos. Dizem-nos em criança que só podemos escolher um brinquedo, uma sobremesa, um presente de aniversário. Somos, desde que nascemos, obrigados a compreender que não podemos ser nem ter tudo e que a realidade que escolhermos agora define que outra nunca será vivida. “Tens de saber para onde vais”, dizem-nos, para que nunca nos arrependamos da nossa escolha.

Quando crescemos, as escolhas complicam-se. Existem outros fatores mas, sobretudo, outras pessoas que complicam isto tudo. Imagina que, tu adulto, estás desidratado, com a boca completamente seca, de lábios cortados, com tanta sede que te desesperas e é te dado a escolher entre duas coisas: um pote de ouro que poderá mudar a tua vida ou um copo de água, que matará a tua sede. Talvez alguns “amigos” te empurrem para o pote de ouro porque é uma oportunidade excecional e dizem-te que, se recusares, serás visto como um louco! Quem é que despreza um pote de ouro? Quem não escolhe o óbvio? Mas, talvez, tenhas a sorte de te rodeares de outros que te dizem para pensares em ti e no que tu queres. Mostram-te que não deves sentir culpa por não seguires aquele caminho apontado e apoiam que mates a tua sede porque é o que mais importa, é essencial, é o que realmente precisas.

Todos os dias existem escolhas a fazer. Pequeninas, às vezes aparentemente insignificantes, mas que vão definindo se optas pelo ego, pela aparência, ou pela verdade e essência. São opostos colados, vizinhos, que vivem juntos. Então como é que sabemos que escolhemos bem? Quem é que nos mostra a razão?

Acho que a resposta é sempre de cada um e está sempre certa aquela que te aproxima da paz. O aperto e a angústia indicam-me que alguma coisa está a corroer a minha essência, a tranquilidade e confiança apontam-me para o que é mais acertado para mim. Preferida III

O pote de ouro ou o copo de água? O projeto que te traz projeção ou o trabalho que te valoriza? O carro novo que te endivida ou o descascado que te serve e tranquiliza? A profissão que te paga ou o sonho que te alimenta? O pote de ouro ou o copo de água?

 

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Cancro Saudável.

É possível ter um cancro saudável. Antagónico? Um contrassenso? Não me parece. É possível ter um cancro saudável e digo-o não porque li sobre isso mas porque o experienciei. Há uma frase (que não é minha) que ouvi e do qual gosto muito – “só existem coisas positivas e experiências”. E mesmo que nos pareça um exagerado floreado da vida apagarmos a negatividade dos nossos dias, identifico-me com esta frase. Voto nela.

Aprendes alguma coisa com o sofrimento? Sempre. E é por isso que te digo que o meu cancro foi saudável – e mesmo que lá estivesse enfiado o maligno foi benigna a minha experiência. Se consegui tirar dali aprendizagens, se melhorei enquanto ser humano, se cuidei melhor do meu corpo, se dei o meu melhor durante o tempo que fui doente oncológica, porque não dizer que tive um cancro saudável? Aliás, melhor, porque não dizer que tornei o meu cancro saudável?

O que é ser saudável? Ter umas análises tão boas capazes de ser emolduradas para que todos a possam elogiar? Ter o peso ideal e as células a comportarem-se como as filhas perfeitas que nunca provocam desordem nem organizam festas na ausência dos pais? E quem não tem nada disso, já não é saudável porque tem uma doença? Se o doente tem uma energia positiva, cativa com o seu bom-humor, promove bem-estar àqueles que o rodeiam, não é saudável? Não pode ter um cancro saudável se está a dar o melhor de si? Acredita, conheço gente saudável com menos saúde emocional e espiritual que um aparente não-saudável.

Não me interessa que isto não venha nos livros de medicina. Eu acredito que podes tornar o teu cancro saudável, tão saudável ao ponto de ele deixar de te magoar; tão saudável ao ponto de conseguires falar dele sem chorar, tão saudável ao ponto de te esqueceres de colocar a peruca; tão saudável ao ponto de te sentires completa sem mama; tão saudável ao ponto de seres a pessoa mais grata do mundo porque sentes que tudo está bem.

Eles dão-lhe a “malignidade” tu dás-lhe o termo saudável. E vemos quem ganha.

Marine Antunes.

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Cancro com humor_ Geral

A ansiedade vem como aquela vizinha aparentemente inocente.

A ansiedade é mesquinha. Vem devagarinho, quase sem sintomas, sem avisos, sem alarido, vem como aquela vizinha aparentemente inocente, que diz bom dia porque é simpática mas o que quer é olhar para o saco da outra e ver quantas compras tem. A ansiedade parece pequenina, se fosse vista à lupa, seria guardada num frasquinho minúsculo e arrumada ali, naquele canto onde ninguém limpa, porque a ansiedade quase não se vê e não tem mal existir. Quem não vive com um bocadinho de pó escondido? Todos. E a ansiedade é assim. Comum, normal, habitual nos nossos dias, aparece em momentos de chegadas e saídas, tão rápido, que nem damos por ela. Vive ali, na ponta do cabelo, depois passa para o lugar de trás do carro e sem repararmos nisso, acorda connosco, mesmo ao nosso lado.

A ansiedade sobe paredes, como a humidade e, no início é só uma manchinha, um ponto preto no teto mas se não for limpa, fechada a porta ela cresce. Cresce na parede branca e mete-a escura e onde ontem foi brilhante, hoje é nódoa, é nociva para a saúde. É grave, estraga uma casa e nem damos por nada, porque é só ansiedade, perdão, porque é só humidade, certo?

A ansiedade não tem razões. Não tem motivos óbvios e tem os motivos todos e, por isso, a ansiedade faz sentir a quem a sente desajustado e até ingrato – porque raio me sinto nervoso com a vida que tenho? pensa ele, que sem motivos tem todos mas não os identifica, não os reconhece, porque deixou a porta fechada e a mancha agora está por todo o lado. Como a humidade que nunca seca, estraga a tinta e a estrutura e depois há a rutura interna.

A ansiedade apodrece. A ansiedade mina, fragiliza e quebra, a ansiedade é quebradiça como o ovo, a ansiedade é o soco que dói sempre. A ansiedade mente porque obriga a dizer que está tudo bem. A ansiedade faz sentir a quem tem tudo que nada tem.

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Cancro com humor_ Geral

Escolhe quanto queres viver.

Se pudéssemos escolher a quantidade de dias a viver, somaríamos o máximo, todos os dias, até aos mil anos, ou não, ou só até aos cinquenta, aos que fosse, se pudéssemos escolher. Não podemos.

Não dá para oferecer a eternidade a ninguém mesmo que quiséssemos, mesmo que a merecêssemos. Mas podemos escolher quanto queremos viver dos dias que nos estão destinados. Isso podemos escolher.

Escolhe não guardar mágoas. Escolhe não falar mal de ninguém. Escolhe aprender com as falhas. Escolhe cortar as amarras com os que não acrescentam nada e acrescenta tu amor e humor aos quantos dias te calharem. Escolhe falar por bem, aceitar os que não pensam o mesmo que tu, escolhe apreciar as coisas e as pessoas, escolhe gostar de ti, escolhe gostar de quem te faz bem e não olhes a quem, quando for para fazer pelo melhor. Escolhe ser maior em valores, em amores e não te melindres pelo que não é substancial e não leves tudo a mal, não passes de bestial a besta quem te ensinou alguma coisa, perdoa, relativiza, suaviza. Passa um pano claro onde tem pó.

Não dá para oferecer a eternidade a ninguém mesmo que quiséssemos, mesmo que a merecêssemos. Mas podemos escolher quanto queremos viver dos dias que nos estão destinados. Isso podemos escolher.

Se chove lá fora, aprecia, se faz sol, agradece e se nenhuma dessas vezes te convir, aceita todos os tempos e as estações, porque sempre que reclamas a alma morre, porque sempre que te chateias é mais um bocadinho de brilho teu que se foi.

Marine Antunes.

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