Cancro com humor_ Geral

As 4 formas de saudade: presente, nostálgica, magoada e insana.

Para mim, existem vários tipos de saudade. Dei-lhes nomes.

De vários géneros, com várias formas, com maior ou menor intensidade, com mais ou menos drama. Não há nenhuma que não sinta. Acho que a saudade tem muitos tons, muitas músicas. Dizem que é muito nossa, que é de nacionalidade portuguesa, que faz parte do nosso sangue. E sangue, tem. A saudade tem sangue, tem origem, tem ADN. A saudade tem personalidade e é gaja – porque a saudade é bipolar –, varia, muda, altera-se.

Se, por um lado, não sou muito saudosista com o meu passado – nunca acho que fui mais feliz ontem porque acredito sempre que “agora é que é bom” –, as saudades aparecem-me no presente. Achas estranho? Talvez seja, mas funciono assim. Sinto saudades hoje, de hoje, sobre hoje. Se hoje estou com as pessoas, lembro-me que amanhã não estarei e já sinto saudades delas. Que coisa é esta de se ter saudades quando não há ausência? Saudade não significa falta? Como é que se tem saudades de quem está connosco? Sinto esta saudade várias vezes. Esta é a minha maior saudade. Quando estou com os meus pais e estamos como eu gosto – a rir e a falar sobre tudo –, ao mesmo tempo que me delicio, que usufruo, sinto também algum desconforto porque sei que amanhã irei embora e que aqueles momentos irão fazer-me falta. O prazer traz desconforto e o segredo é saber não me perder por sentimentos nem ideias que me afastem do presente, e estar simplesmente. Estar só ali. Esta é talvez a saudade que mais me “ataca” e aflige e que sinto com maior frequência: a saudade presente. Ou, então, ainda não passou, ainda está a acontecer e não vou a lado algum, mas sinto falta porque é tão bom que parece que escasseia. Sinto saudade só de imaginar a falta – e é assim que me sinto todos os dias quando estou com o Tiago. A saudade presente é tão boa que parece que escasseia.

Depois há aquela saudade mais conhecida, que mais sentido nos faz: a saudade nostálgica. Não está necessariamente ligada à perda, ao luto, mas existe apenas porque é passado e soube bem: como a saudade da infância, a saudade de ir à escola, a saudade de brincar. Essa, não sinto tanto. Mesmo tendo as melhores recordações da minha infância, da escola e, depois, da faculdade, não sei explicar o motivo, mas não me sinto abalroada por ela. Talvez esteja, de alguma forma, treinada para ser uma pessoa do presente e não me permita viajar por dias quentes em que a mangueira do jardim servia de piscina. Talvez não queira sentir muita saudade nostálgica ou talvez nem a sinta porque essa menina nunca deixou de existir.

Depois vem a outra – a saudade magoada –, e esta é uma mistura de todas as saudades do mundo: é presente porque, como aparece nos nossos dias e nas nossas rotinas, sente-se tão forte como se fosse hoje o primeiro dia que a sentimos; é nostálgica, tão nostálgica, obrigando-nos a viajar para outro tempo que parece ter sido noutra vida, soube tão bem mas desta vez magoa, afinal, sabemos que não volta. A saudade nostálgica também não volta, mas ainda pode ser recordada à mesa com os irmãos e os primos que, apesar de já terem crescido, ainda fazem parte dela. A saudade magoada, não. Essa já não telefona, porque já não existe. A saudade magoada aparece a qualquer momento, num passeio, a ouvir uma música, acompanhada de uma recordação. Não queremos sentir esta saudade todos os dias – nem podíamos. Não viveríamos em paz assim. Esta saudade impõe um trabalho emocional constante, muito choro e amigos por perto. Esta, também a sinto. Apesar de ser uma saudade tramada, não quero nunca deixar de a sentir – porque é uma saudade viva.

Depois há as saudades do que ainda não se viveu. Esta é a saudade insana, que não faz sentido porque não pertence a nenhuma realidade. Nem sequer nos pertence. Temos saudades duma casa que ainda não nos pertence, duma viagem que ainda não fizemos mas queremos tanto, dum amor que queremos que chegue.

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Há vários tipo de saudade. Não há nenhuma que não me caiba. Não há nenhuma que não queira. São todas nossas – a presente, a nostálgica, a magoada e a insana, cada uma sentida à sua maneira. Cada uma tão menina.

Cancro com humor_ Geral

Respira e Não Pira.

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Legenda: Bali, 2018.

Estou sempre a dizer que não tenho fórmulas. E não tenho. Não tenho fórmulas para nada. Medito e esqueço-me de meditar durante meses e a primeira vez medito deitada, a segunda sentada, a terceira de frente ao mar. Sem leis. Vivo a minha espiritualidade sem regras, sou uma rebelde na espiritualidade porque não tenho fórmulas, nem mestres, nem guias (só não fujo da janela nem uso calças rasgadas, de resto, sou a rebeldia em pessoa).

“Está tudo errado!”, dizem-me os livros, mas vou conseguindo guiar o meu camião pela estrada, sem autorização para conduzir pesados, tentando desviar-me dos buracos e esta metáfora é a mais estupida que já fiz porque odeio conduzir.

Não tenho fórmulas mas tenho crenças e acabo por ter hábitos sem querer. E por ter essas “dicas” em mim que decidi há muito tempo que deveria partilhá-las. Não tenho a pretensão de ensinar nada a ninguém mas sabes o que penso? Se a experiência morrer em mim, valeu a pena existir? Se não passarmos a receita do molho secreto da nossa avó, mais ninguém terá acesso a ela e  pequena porque a escondemos. Partilhar o que me mantém à tona, não porque é a fórmula certa – NÃO TENHO FÓRMULAS – mas porque eu também me inspiro nas vivências dos outros. Encaro a partilha de ideias de como viver neste mundo sem pirar, como um passeio numa loja de roupa: normalmente, experimento roupa e deixo praticamente tudo para trás porque “fico muito bonito naquele manequim da montra mas a mim não me serve”, sem nunca comprar à primeira, adaptando sempre ao meu corpo, ao que eu procuro, porque não é por te ficar bem a ti que me fica bem a mim. Será sempre esse o mote. Mostrar sem impingir. Tal e qual como deve acontecer numa loja de roupa.

Na vida é assim. Gosto de ouvir os passos dos outros, inspirar-me com as suas ideias, ler artigos sobre emoções, conhecer pessoas que dizem saber tudo sobre isso (e rir-me delas) e tirar as minhas próprias conclusões. Tiro anotações sobre o mundo, as pessoas e as ações delas e vou escolhendo o que combina comigo.

Respira e Não Pira. Às vezes é só isso que precisamos. Dar ar aos pulmões. Fechar os olhos para não vermos o quadro segundo outra perspetiva. A verdade, é que tenho tido o humor como meu principal companheiro de viagem mas não só. Sei que vim a este mundo para ser feliz e participar da felicidade alheia. Ui, os comediantes odeiam, certamente, estas frases-que-não-dizem-nada, zero factuais, sentimentais, onde se fala de humor como missão. Pois é, mas é mesmo o que penso. O humor está na minha vida como um gancho para outras coisas. É o gatilho para vos escrever. É a deixa para comunicar. É o argumento para me ouvirem. Mas depois entra a paz, o amor, a essência, a alma que fala mais alto.

Respira e não Pira. Está tudo bem. Mesmo. É só olhar à volta e ver nos outros as nossas escolhas e fazer as escolhas por nós. Estamos todos para o mesmo. Não há fórmulas mas há tantas vidas a acontecerem que é um desperdício não olharmos para elas e tirarmos as nossas lições.

Marine Antunes.

Cancro com humor_ Geral

Corrente Positiva – Joana Rebelo

Agradeço aos médicos e aos tratamentos. Agradeço à Ciência, à tecnologia e à evolução. Mas também agradeço aos produtos naturais, à alimentação, ao humor e aos que me rodearam, também agradeço a força do pensamento positivo coletivo, também agradeço a quem me cuidou com a mente, com as mãos e com o coração. E por acreditar no TODO, partilho o caso de sucesso da Massoterapeuta que conheci, a Joana. O texto que partilho a seguir é dela. A mensagem que a Joana recebeu fez-me chorar ❤ – Marine Antunes

JOANA:

«O AMOR cuida e pode “CURAR”…

No dia que recebi a mensagem da Sofia a pedir para ajudar o seu pai, confesso que tremi…

O Pai da Sofia é doente oncológico e de dia para dia está a perder algumas das suas capacidades, os músculos estão a enfraquecer o cérebro não responde às suas exigências.

O Pai da Sofia é um herói, um herói de verdade, um herói que apesar do momento que está a viver e depois de tanto perder ele acredita, ele confia, ele quer muito…porque ali naquelas paredes vive -se AMOR e ele ainda quer muito viver esse AMOR.

Eu vou dar o melhor de mim, eu vou dar todo o meu AMOR em cada gesto, em cada toque em cada momento que ali passar eu só quero levar o AMOR e trazer o pai da Sofia no meu coração porque ele tal como eu acredita que…

O AMOR CUIDA E PODE “CURAR”

Iniciei os tratamentos com o pai da Sofia no dia 15 de Novembro, em cada sessão eu entrego-me de coração a este GRANDE SENHOR, em cada sessão eu acredito que será possível.

Em 3 sessões vejam o que conseguimos juntos…

� Já sai da cama para a cadeira de rodas sozinho;
� Já vai à casa de banho sozinho (adeus arrastadeira);
� Iniciámos os treinos para caminhar com o andarilho de forma a ser mais autónomo e já andamos em casa alguns passos.

Hoje a Sofia enviou-me uma mensagem que partilho com vocês para que percebam que para mim O AMOR “CURA”!

Esta é sem dúvida alguma a melhor forma que eu tenho de me honrar, esta é a marca que eu quero deixar em ti ❤ e no MUNDO!»

Contactos: https://www.facebook.com/massoterapeutaJoanaRebelo/

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Cancro com humor_ Geral

Crescer é querer os nossos pais bem.

 

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A minha irmã está a chegar de Inglaterra para usufruir de uns dias-relâmpago em família. E é sobre pais e irmãs e casa que escrevo.

Nenhuma relação é fácil. Andamos uma vida inteira a construir, a aprender a lidar, a saber o que dizer, a perdoar e a sermos perdoados. Somos filhos, somos irmãos, somos namorados e amigos e  nunca sabemos quando um papel é chamado a agir mais do que outro. Até a uma certa idade só nos preocupamos em ser filhos, a fazer o que nos compete, a tentar não destruir a nossa autoestima, a orgulhar os nossos por termos passado de ano com boas notas. Achamos que a nossa principal função é sobreviver à escola, às borbulhas e aos recados na caderneta e, até a um certo momento, é mesmo. Mas crescer implica descentralizar o nosso umbigo e não ser só filho ser ainda amigo porque o papel de cuidador, com a idade, passa a ser nosso também. Crescer é deixar de ser só filho e ser pai e mãe dos nossos pais porque eles passam a precisar. Sempre precisaram mas agora é a vez deles.

Acho que falo por muitos quando digo que o pior de crescer é a preocupação que aumenta com o bem-estar dos nossos pais. Sair de casa pode significar o início de uma ansiada vida independente e os progenitores exaustos podem até festejar com champanhe o fim das meias pelo chão, das birras e das exigências das crias mas é também o início de uma outra vida para eles. De repente há mais silêncio, menos confusão, menos preocupação mas também mais melancolia, mais tempo para pensar em desgostos, mais calma triste.

Quando saí de casa não foi nada fácil para os meus pais. Não só por eu ser esta filha-espanto que vocês desconfiam que seja mas, sobretudo, porque isso significou a independência deles. De repente, eles eram o mais importante do dia e para quem viveu uma vida inteira a cuidar de três filhas, é a apresentação de uma nova realidade. Felizmente para nós, na maior parte do tempo, os meus pais vivem perfeitamente felizes e sintonizados sem a nossa presença: passeiam, namoram, têm mais tempo e menos barulho mas sei que existem momentos em que eles trocariam essa paz pela bagunça de antigamente. Sei que têm saudades de cuidar, que o jantar para dois às vezes não tem graça, que o nosso voo sabe à velhice deles.

Queremos os nossos pais bem. Queremos que a vida deles que foi construída em função da nossa, tenha valido a pena. Queremos ser a inspiração para uma vida melhor e o trampolim para sonhos novos. Queremos dar-lhes netos e bisnetos e fotografias no natal, queremos que digam que fariam tudo de novo, queremos ter vontade de ter os nossos próprios rebentos porque afinal ter-nos compensou.

Queremos aprender a ser filhos-pais, daqueles que sabem o que é melhor a fazer. Queremos que esta sensação de eterna dívida de gratidão seja paga. Queremos ainda que nos façam a bainha das calças e nos mandem a sopa ao domingo, porque seremos sempre filhos mimados com saudades do pão da nossa casa. Queremos para sempre os conselhos, queremos os ralhetes porque a dada altura passam a ter piada, queremos que vivam para sempre. Queremos sempre os nossos pais.

Crescer implica deixar o ninho. Crescer implica seguir em frente, com medo mas também com a certeza que não poderíamos ficar em casa para sempre. Crescer implica deixar de ser só filho. Crescer implica mudança e às vezes não apetece sair do mesmo lugar. Crescer é a coisa mais bonita do mundo e, ao mesmo tempo, a mais difícil. Crescer é para os corajosos. Crescer é saber que não se pode ficar. Mas crescer é ir sem nunca, nunca abandonar o primeiro lar.

Marine Antunes

Cancro com humor_ Geral

A mente também mente.

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Legenda: Eu a dizer à minha mente, “CALA-TE QUE ESTOU A FALAR!”

É incrível as mentiras que conseguimos dizer a nós mesmos. Mesmo que sejamos defensores da verdade e que não saibamos mentir aos outros, connosco já não funciona assim. Mentimos de manhã, quando prometemos que são só mais cinco minutinhos na cama; mentimos ao almoço quando dizemos que é só mais uma colher; mentimos quando nos mantemos numa festa que já não encanta; mentimos quando dizemos que estamos bem e não estamos.  A mente também mente. A mente diz para irmos em frente, mesmo que as mãos nos tremam e o coração grite por ajuda; a mente diz “claro que quero estar aqui!” quando a garganta seca de pânico; mentimos sem pensar que estamos a mentir – porque a mente também mente para sobreviver.

A minha mente mentiu durante algum tempo, quando mantive relações humanas que já não queria e trabalhei com pessoas que não me faziam bem. Lembro-me de a minha mente dizer, “Marine, aproveita esta oportunidade” e de acreditar nela porque a mente tem supostamente razão e depois lixei-me (às vezes em vómitos) porque era o coração que afinal sabia tudo. Sabe sempre. Mesmo no Cancro com Humor, a mente mentiu. Sabiam? Sim, mentiu quando ouvi pessoas que não me aconselharam bem e procurei agradar para não chatear. Mentiu-me ao ponto de me sentir infeliz sem saber porquê e de voltar à estaca zero para fazer tudo de novo. A mente mentiu, eu ouvi-a durante um tempo e depois esbofeteei-a até se calar. Porque este projeto é só Coração.

Não é fácil calar a boca a uma mente mentirosa, sobretudo, quando se trata de lidar com os outros. Não sei se já vos contei isto mas tenho um pequeno-gigante pavor de conflitos. Se sei que tenho de confrontar alguém, ando nervosa durante todo o dia e se puder fugir, fujo. Já percebi que esta dificuldade de confronto é, na verdade, o terror de desagradar (e para quem tem um projeto que se chama “Cancro com Humor” já deveria ter aprendido a lição). Não podemos manter pessoas que só nos retiram paz em prol de verdades mentirosas que dizem para engolirmos sapos como se os sapos fossem chocolate. Tento, tento mesmo, ter na minha vida só se a mente e o coração aprovarem ao mesmo tempo e no mesmo ritmo e se a mente me mente, por mais que me custe, tento apanhá-la na curva:

“Ei, mente mentirosa, estás só assustada com a mudança. Tu já não queres isto para ti”.

Não fazer fretes é uma luta de todos nós – já vos escrevi muito sobre isso – mas é preciso, antes disso, baixar o som da mente e aumentar o som da intuição. Mesmo que a mente mentirosa diga que estamos a ser complicados e até injustos, desculpem o termo mas caguem nisso. Não nos faz bem, ponto. Não há nada que a mente possa dizer em relação a isso.

A mente também mente. E nós temos de saber quando é bluff.

Cancro com humor_ Geral

Desculpe, querida psicóloga, por ter pensado tão mal de si.

Hoje é o dia Nacional do Psicólogo, o que quer dizer que tenho de pedir desculpa à minha: não é para isto que servem os dias especiais? Para nos lembrarmos do que temos de fazer?

A minha doce Dra. Eugénia, que já não se deve lembrar de mim, foi o melhor que me poderia ter acontecido. Claro que eu não sabia disso – nem o mostrei – mas com 14 anos, não se pode pedir um grande brilharete de maturidade a ninguém, certo? A verdade, é que odiei a ideia de ter de a conhecer. Mas depois da primeira consulta, já não imaginava a minha vida sem ela.

Depois do cancro, voltei à normalidade dos dias com a esperança (e ingenuidade!) que tudo voltaria a ser como era antes. Não foi nem poderia ser. A Marine pós-cancro tinha mudado, claro que tinha mudado. Tinha visto e cumprimentado a morte, tinha perdido amigos e companheiros; tinha aprendido mais do que era suposto (aos 13 anos só me deveria ter sido exigido que decidisse qual o rapaz mais bonito da turma), tinha vivido mil vidas, dentro de uma vida ainda tão pequenina.

Lembro-me que, neste processo, quase não chorei. Prometi a mim mesma ser forte, tão forte, ao ponto de bloquear o medo, as dúvidas, o choro. Não queria assustar os meus já assustados pais, não quis pesar-lhes a vida, mesmo pesando eu, só 43 quilos. Que estupidez tão grande. Um pensamento altruísta sim, mas estúpido. Naturalmente, que todas aquelas emoções guardadas, armazenadas como se fossem latas de atum que temos em casa e que nunca usamos, acabariam por sair, a qualquer momento e fora do contexto. Tantas lágrimas engolidas e pensamentos que nunca tinham sido partilhados, ecoavam em mim, prontinhos a revoltarem-se e a saírem à rua.

Quando já não era suposto, quando já estava “tudo bem”, quando já não fazia parte do guião estar assustada porque, afinal, “o pior já tinha passado”, quando os telefonemas acalmaram, as visitas diminuíram e a vida voltou à sua “normalidade” , foi aí, nestes “quandos”, que os medos viram a luz do dia.

Nunca esquecerei a afronta que senti, quando os meus pais disseram que eu precisava de ajuda. E como qualquer adolescente que se preze, comecei por revoltar-me com eles, por considerar uma injustiça tremenda terem a ousadia de me dizerem que eu não estava bem. Afinal, ESTAVA ÓPTIMA (sim, era assim, aos gritos, que eu mostrava que estava óptima). E eles, como todos os bons pais que se prezam, ignoraram as minhas chantagens emocionais e levaram-me a uma psicóloga. E foi aqui que, depois de alguma resistência inicial, fui, aos poucos, deixando cair a capa e fui chorando o que ainda não tinha chorado e partilhado o que ainda não tinha partilhado.

Senti, pela primeira vez, que me era permitido.

Que era normal ter medo. Que os fortes também duvidavam. Foi exactamente quando entrei em remissão que mais precisei de ter ajuda. E esse apoio emocional e psicológico que me foi dado, ajudou-me a reaprender a viver. Foi quando a vida seguiu, no seu rumo calmo, que tive de me adaptar a uma rotina comum. Tive de aprender a voltar a adormecer no meu quarto cor-de-rosa e a deixar, num passado resolvido a cama do Hospital, tive de aprender a voltar a fazer planos, a ter crises existenciais próprias da idade, a respirar de novo, porque afinal, estava viva.

E foi ela. Foi ela que, com as palavras mais certas e com o timing mais bonito, deixou que chorasse quando era para chorar, permitiu-me reclamar, porque ainda não o tinha feito e soube que eu chegasse lá, às minhas respostas, como se andasse de bicicleta com as rodinhas de apoio. Viu-me agradecer sem ter de me dizer e confidenciei-lhe pesadelos que ainda não tinha contado a ninguém. Achei-me capaz e normal e normal na minha incapacidade. Nunca me julgou.

Por isso, querida Psicóloga, peço desculpa por todos os nomes mentais que lhe chamei. Não a odiava mesmo, entende? Não era nada contra si que até tinha um sotaque igual ao meu, era eu. Mesmo eu. E sei que isto parece uma desculpa da treta, daquelas em que a miúda quer acabar a relação (“o problema não és tu, sou eu!”…) mas é mesmo verdade. Comigo, fez o seu melhor. Sabe como sei isso? Porque estou a escrever-lhe agora.

Feliz dia Do Psicólogo. 

Da sua paciente favorita, Marine.

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Legenda da fotografia: Tailândia ❤

Cancro com humor_ Geral

Já não sou aquela menina assustada.

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Quando era miúda, tinha de tal forma medo do escuro que era impensável para mim  levantar-me ao meio da noite para ir à casa-de-banho – daí ter feito xixi na cama até aos 11 anos. Preferia a vergonha matinal ao medo irracional de caminhar, no escuro, no corredor e enfrentar o silêncio da casa. Mesmo.

Este medo da noite, do escuro, trouxe-me situações difíceis em todas as idades, não só na infância. Já crescida, com 18 anos, cheguei a ficar sentada na cozinha, sem me conseguir mexer, até a minha irmã mais velha chegar a casa. Tinha ficado a ver televisão, não dei pelas horas e quando reparei já passava da meia-noite. Para mim, já não dava para sair dali. Fiquei sentada, cheia de frio e com dores nas nádegas por conta do banco frio, até a minha irmã chegar por volta das duas horas da manhã. Já estava segura. Já me poderia mexer. Esse pânico obrigou-me a dormir acompanhada e a não conseguir dormir, se estivesse só.

Lembro-me muito bem – porque foi praticamente ontem – da primeira vez que dormi finalmente sozinha (até então, dormia sempre com a minha irmã). Depois de sair de casa dos meus pais, nunca esquecerei também, a primeira noite que consegui passar no meu doce lar, completamente confortável, quando o Tiago tinha espetáculos fora. Essa proeza só aconteceu em 2018. Até então, precisava que alguém jantasse pelo menos comigo, para que quando me fosse deitar, me sentisse minimamente acompanhada. E também era a desculpa perfeita para ter a minha melhor amiga comigo. Quando queria dormir, desligava as luzes da casa rapidamente e enfiava-me na cama, com a luz do telemóvel a acompanhar-me e cansava a vista a ver tudo e mais alguma coisa até adormecer. Técnicas que não resultavam em nada, porque acabava por ter pesadelos durante toda a noite e só voltava a ter paz quando acordava. Agradecia o novo dia e o fim da noite.

As noites sempre foram difíceis para mim. Sempre. Ainda hoje são muito complicadas. Mas talvez tudo tenha piorado durante os internamentos, onde o medo de dormir fora de casa era aumentado com os barulhos misteriosos que se ouviam: as máquinas a trabalharem, as pessoas que gemiam, os passos que se ouviam no corredor, os choros diferentes e constantes, até os vómitos dos outros que depois passavam também a ser os meus. Tudo o que não se vê é mais assustador e aqueles sons aumentavam o meu ritmo cardíaco e, consequentemente, os meus pesadelos. Sei, porque me contavam depois, que as enfermeiras tinham de me acalmar durante a noite, por vezes com medicação, para que os outros pudessem dormir. Os meus pesadelos eram os pesadelos de quem partilhava o quarto comigo. Fiquei curada mas trouxe-os comigo.

Hoje em dia, estou nem melhor –  apesar de continuar a sufocar o Tiago em abraços e pernas durante a noite para me sentir acompanhada, conheço outas técnicas mais saudáveis que ajudam a acalmar a minha mente assustada – treino para ter a respiração correta, oiço quando me lembro aquela música do fundo, sei que a meditação ajuda. Quero curar-me disto também.

Ontem, a fazer meditação guiada, adormeci a ouvir isto: “Tu já não és aquela criança de dez anos, assustada e com medo”. Ressoou tanto em mim que  não tive como controlar as lágrimas. Não sou mesmo. Não sou a criança que tem medo dos sons do hospital e não quero ser a mulher que tem medo de ficar sozinha outra vez. Mas a verdade, é que tenho pesadelos durante a noite e sou tão feliz durante o dia e, não há como negar, a noite e o dia fazem parte de mim, afinal, eu sou também o meu sono.

Não me posso esquecer que já não sou aquela menina assustada. Lembro-me que sou luz e escuridão. Lembro-me que é no equilíbrio que está o melhor de mim.  Lembro-me que já não sou aquela menina assustada.

 

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Corrente Positiva – Catarina

Estava a tomar o pequeno-almoço no café, quando li este e-mail. As lágrimas foram imediatas (peço desculpa ao funcionário que ficou confuso ao entregar-me a meia de leite), afinal, este e-mail foi dos mais bonitos que já recebi. Não sei o que é ser a escritora que vende milhares de livros mas sei o que é receber o melhor e mais bonito feedback do mundo. Não há maior gratidão do que saber que o meu livro é lido na fase mais vulnerável da vida de alguém. Obrigada Catarina não só pelas palavras que me dedicas e pela honra por fazer “parte” mas, sobretudo, por partilhares a tua história. A tua essência. O teu amor. 

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Querida Marine,

Passados tantos meses, tive finalmente coragem de ler o teu livro (posso tratar-te por tu? temos quase a mesma idade eheh).
E escolhi uma altura muito especial, a do meu “renascimento”, para mergulhar nas tuas palavras tão certeiras.
No dia 2 de Agosto fui internada, em total isolamento, para fazer um auto-transplante. A minha recidiva do Linfoma de Hodgkin, que me visitou pela 1ª vez em 2016 e deu ares de sua graça novamente em 2019, levou a que este “ou vai ou racha” culminasse neste internamento. Fiz 6 dias consecutivos de quimioterapia de alta dose (quais unicórnios, a droga era mesmo boa!), e ao 7º dia renasci. As minhas células lindas (como sempre lhes chamei), que foram recolhidas em finais de Junho, foram reintroduzidas no meu corpo, para que ele percebesse que este reset / format / reboot / etc, significava um renascimento. A partir daquele momento, o meu sistema imunitário não iria repetir os erros passados, pois as minhas células lindas e de enorme qualidade iriam ensiná-lo como se comportar daí em diante. Um renascimento.
E foi neste 6ª dia de quimio e no dia 8/8 (dois infinitos), no dia do meu renascimento, que tive o prazer de ler o teu livro. Sorri, gargalhei, chorei. Senti cada palavra como se fosse minha, cada sentimento como se fosse uma descoberta e uma confirmação ao mesmo tempo. Queria ter sublinhado cada frase que me fosse especial, mas não pude levar muita coisa para o quarto (tais os cuidados extremos dos objectos que levamos connosco), por isso decidi dobrar cada folha, no cantinho superior, onde constassem frases que me dissessem alguma coisa. Escusado será dizer que o livro ficou com 99% das páginas dobradas, e imagina o desafio de dobrar as folhas quando quer a frente, quer o verso continham frases especiais… foi em cima de um lado e em baixo do outro ehehe.
Só te consigo dizer: OBRIGADA.
E talvez dar uma sugestão… o que escreves, é muito mais do que Cancro com Humor. É Cancro com AMOR. Só sentia amor nas tuas palavras….! Talvez devesses explorar este trocadilho Humor/Amor…. 🙂
Permite-me mais um agradecimento. No dia em que fiz o auto-transplante, o 8/8, o meu renascimento, publicaste nas redes sociais um pequeno texto chamado EMERGIR. Foi a 1ª coisa que li depois da reeintrodução das células no meu corpo. Passou a ser o texto que me define, nesta nova vida. Li e reli mil vezes, de tão certeiro, bonito, maduro e tocante. OBRIGADA.
Desejo-te o melhor do mundo, que continues a partilhar esse talento da escrita e a ser feliz, sem cancro, e acima de tudo com muito humor e amor 🙂
Obrigada pelo que me fizeste sentir.
Um grande beijinho,
Catarina Rogado
Cancro com humor_ Geral

O nosso olhar não chega.

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Imagina o que seria se nos conseguíssemos colocar, de facto, no corpo do outro? Se a nossa vida fosse aquela vida, se o nosso olhar fosse aquele olhar, se pudéssemos trocar de pele e viver na íntegra outras escolhas, vitórias mas também outras cruzes? Este é talvez o exercício mais difícil de se fazer mas também o mais precioso. Quantos problemas deixariam de existir se a forma como encaramos o mundo fosse trocada por outras formas – porque a nossa maneira de ver é tantas vezes limitadora, resistente. Precisamos de outros olhos para entender o que os outros conseguem ver. Partindo de nós, só, não chega.

Nas relações pessoais a melhor forma de resolver um conflito – que surgem, na maioria das vezes, por falta de comunicação – é colocarmo-nos no lugar do outro. Se entendermos aquela frustração, se percebermos aquele passado, aquela história, talvez o nosso julgamento seja mais justo. Lembro-me, por exemplo, que só comecei a entender melhor a dificuldade e cansaço do trabalho da minha mãe (por mais que ela nos explicasse) quando, nas férias de verão fui trabalhar com ela. Só aí entendi. A fazer os mesmos turnos, as mesmas tarefas, a lidar com as mesmas questões, a sentir as mesmas dores nas pernas. Depois, chegava a casa e dormia até o outro dia, sem entender como conseguia a minha mãe continuar a trabalhar em casa, a fazer as suas caminhadas, a tratar do jantar, da roupa e de tudo o resto depois do dia que tínhamos passado a trabalhar juntas?

Só entendi verdadeiramente estando lá.

Claro que não podemos, na prática, fazer isto com toda a gente. Não podemos experimentar todos os empregos para entendermos melhor. Mas podemos tentar pensar segundo outras visões. A enfermeira que já não dorme há um dia e que talvez por isso não tenha sorrido de manhã, o pai que nunca recebeu colo e não sabe como abraçar o filho, o médico que perdeu o seu paciente e que hoje acordou mais descrente, a mulher que ficou sem marido e que tem ataques de pânico – antes de cada comportamento existe sempre um motivo. Para o percebermos, basta ouvirmos, conhecermos a vida uns dos outros, querermos saber.

Entender porquê sem exigir melhor, com total compaixão pelas dores alheias, é coisa de gente corajosa. Queremos sempre que os nossos filhos, namorados, amigos, lidem com o mundo como nós lidamos: “Porque eu nunca diria isto assim!” E isto, esta individualidade é tão difícil de entender. Não aceitamos facilmente outros valores, outras razões, outros motivos. Queremos só identificação total e, “se pensas como eu estás certo, se pensas diferente de mim, não te aceito”. E não adianta fingirmos que somos todos brilhantemente corretos porque não somos. Eu não sou. Coço-me toda se aquele amigo não agiu como eu pensei que deveria agir, como se a sua ação ou falta dela me desiludisse. Como se tivesse a obrigação de ser aquilo que eu projetei.

Quero entender melhor outros olhares porque este, que já foi míope, é tudo menos certeiro. É um olhar de uma pessoa só e, por isso, miúdo, simples, curto.

Cancro com humor_ Geral

Quando não pensamos no tempo, não se manifesta. Quando reparamos nele, parece que acelera.

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Tailândia 2018

O tempo vai passando para todos. Por mais que nos miremos ao espelho, usemos cremes e tenhamos aquela coisa que as gajas e os gajos bons adoram falar – “uma boa genética” – o tempo vai passando para todos. Quando éramos miúdos, já não era assim. Parecia que o tempo tinha estagnado e que teríamos oito anos para sempre. Ahhhhh, como queríamos ser adultos e ter idade suficiente para andar naquela diversão e comer um gelado antes de ir para cama, sem autorização. Mas o tempo não andava e as nossas mães diziam, “Aproveita, aproveita, que não tens oito anos para sempre!” mas para nós parecia mentira porque o tempo não se mexia. Os relógios não funcionavam connosco e era por isso que não precisávamos de saber ver as horas.

Agora, a coisa é diferente. Fazemos contas à vida e ficamos nervosos com as tralhas que temos para arrumar – não do quarto, que dessas desistimos – mas das nossas tretas, dos nossos projetos inacabados, dos nossos encontros interrompidos, das meias palavras não ditas, das despedidas que não fizemos. Está tudo por fazer. Essa é a sensação que o aumento da idade nos dá, que está tudo por dizer. E fazer. E por mais que me esforce porque, caramba, esforço-me mesmo para concretizar aquilo que anseio viver, também sou atropelada por essa sensação. Bem sei que ter 29 anos é um miminho (não estou com aquela lengalenga que estou velha, nada disso) mas quem é que nunca foi atropelado por  aquela sensação aflitiva de quem ainda nem sequer começou? Quem é que nunca sente, que esse tempo que passa tão rápido traz consigo evolução e aprendizagem mas também ansiedade e medo de estar tudo por fazer logo agora que as pessoas estão mesmo a chegar?

Bem, não se apoquentem comigo. Crio conteúdo há seis anos e sou idiota por natureza por isso, todas as fases de apreensão e dúvida são vividas com naturalidade e algum entusiasmo porque delas nascem SEMPRE resultados (daí todos os escritores, atores e restantes artistas serem meio masoquistas, que anseiam por sentimentos tristes para alavancar ideias).

Sei que tudo aquilo que sacudir a minha alma e vontade terá toda a minha atenção e que serei a primeira a avançar. Sei que este medo do tempo que passa é transversal a todos nós e a única coisa que posso fazer é aceitar a sua passagem. E deixar que o meu pano flutue sem pânico de o ver voar.

Os oito anos pareciam-nos eternos. E o tempo era o mesmo. Talvez porque não pensávamos sobre ele e enquanto não pensarmos no tempo, ele não se manifesta – já quando reparamos nele parece que acelera.

Marine Antunes