Cancro com humor_ Geral

Parei de saber projetar.

Quando era uma criança barulhenta e desdentada, cheguei a dizer que queria ser cirurgiã mesmo que não soubesse soletrar a palavra e tudo porque adorava mexer na carne crua que a minha mãe temperava para o almoço. Associei “gostar da textura da carne crua” à profissão e não sei até que ponto isso não prova o quanto a minha cabeça pode ser problemática, mas o que importa reter, é que já quis “ser” alguma coisa. Não passando muito tempo, deixei a carne e comecei a sonhar em tornar-me numa espécie de Carrie Bradshaw à portuguesa. Nunca me imaginei a torrar o meu ordenado em sapatos como ela tão brilhantemente faz, mas já me visualizei a escrever numa varanda com sol, não a beber um Cosmopolitan mas a típica limonada fresca, enquanto escrevia sobre coisas, pessoas e sensações minhas que fossem dos outros também.

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Fotografia: Tailândia

A realidade é que algo disto existe – a minha casa tem sol, escrevo todos os dias e tenho-vos a vocês desse lado e apesar de ter uma vida bastante diferente da Carrie, alguma parte do sonho estou a viver. É incrível como as coisas nunca são como as projetamos, são normalmente piores e às vezes, surpreendentemente melhores, mas nunca são ipsis verbis como a nossa imaginação ordena. Não sou a Carrie mas também não tenho nenhuma cárie, o que é bom.

Vivo, em parte, aquilo que visualizei mas deixei de saber responder à pergunta “o que queres ser quando fores grande?” porque parei de saber projetar. Só em adolescente, enquanto devorava a série “o Sexo e a Cidade” é que vi uma Marine escritora, sentada ao computador a exprimir ideias mas, mesmo assim, foi uma visão turva, não totalmente nítida e nem o meu melhor e mais cobiçado sonho foi fácil de ver.

Hoje, escrevo. Escrevo e acho que percebo porque não foi fácil imaginar-me sentada e quieta a inventar textos, poemas, confissões: escrever é difícil e nisto a Carrie mentiu-me. Ela não me mostrou as dores nas costas e as tendinites diárias e sobretudo, a dificuldade que é ser pessoa em forma de folha de papel. Não é que isso tivesse mudado alguma coisa no meu rumo mas, poderiam ter-me avisado que há uma regra que tenho sempre, sempre de seguir: é absolutamente obrigatório ser verdadeira. Percebi que quero que me leiam como se me ouvissem, quase como se a escrita fosse a minha boca e não houvesse nenhuma barreira entre nós. Mas mentiria se vos dissesse que sou sempre assim, que consigo transmitir sem filtros, sem meias palavras, sem contornos, tudo aquilo que quero a todo o momento.

Quem é que consegue sempre dizer exatamente aquilo que pensa? Quem é que o pode fazer, sem qualquer amarra? Talvez só os velhos que depois de crescidos são livres e, mesmo assim, ao serem-no são acusados de serem loucos ou impertinentes. A verdade constante nua e crua, crua como a carne, é tão irreal como a vida perfeita da Carrie mas, mesmo assim, é a minha vontade mais intrínseca.

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Fotografia: Tailândia

A verdade em tudo o que sou, digo e penso será sempre a minha maior e mais intensa busca. Procuro-o nas minhas relações, nas palestras, nos afetos e sinto uma dor real quando essa verdade é atropelada pelo medo. Mas faça o que fizer, sempre que contorno, que evito, que procuro outras palavras mais bonitas, mais fáceis, mais corretas, não chego a lado nenhum. Se não sinto, não faço sentir, se não me vulnerabilidade, não acrescento. Lembro-me que, numa palestra, não quis ser brutalmente verdadeira. Estava num dia mais difícil e senti que não conseguia entrar no meu estado mais profundo, não me “apetecia” sentir tanto, sabem? E não o fiz. Partilhei com assertividade mas defensiva, sem a total entrega que habitualmente acontece. Saí da apresentação e perguntei ao Tiago o que tinha achado do meu brilharete. Não houve brilharete. Talvez por não ter sido totalmente verdadeira na minha partilha, não me apeteceu que o Tiago tivesse tido a coragem de o ser e claro, não gostei nada quando me disse que não tinha gostado. Reclamei, amuei, disparei para todos os lados, defendendo o meu direito de não “ser sempre total”, até que me cansei de inventar coisas em que não acredito.

Não, não tenho o direito de fazer de conta. Não, não há tempo para ter defesas. Não, não há outra forma de fazer isto – há que ser estupidamente verdadeiro em tudo o que se faz. Porque a vida a fingir da Carrie pode ser organizada por episódios e temporadas e pode ser vista milhares de vezes, mas a nossa, a nossa só passa uma vez.

 

                                                                                

 

 

 

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Cancro com humor_ Geral

O reencontro com Morabeza.

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O ano de 2018 foi muito generoso comigo. Deu-me pessoas tão bonitas, deu-me Cabo Verde. Foi a minha primeira vez no país mais simpático do mundo, que se não tem este nome, deveria ter. Foi aqui que conheci o sinónimo de Morabeza, arte de bem receber, amabilidade, sorriso tão comum como o respirar.

Hoje, vivi o reencontro há tanto tempo desejado – a nossa família de Cabo Verde ( A Cornélia e o Álvaro) aquela que nos acolheu e nos apresentou tantos amigos, esteve aqui, em nossa casa. A casa é onde está o coração.

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Apresentei as Palestras  Cancro com Humor a convite da Associação Caboverdeana da luta contra o cancro durante dias pelas várias ilhas e o cansaço foi substituído pela certeza que alguma coisa bonita estava a ser feita. Não foram só palestras. Foram partilhas, momentos, conversas que ficarão connosco para sempre. Aprendi mais do que ofereci. Cabo Verde será sempre a terra dos sorrisos e das conversas filosóficas a qualquer hora do dia. Mas o melhor, o melhor que trago desta terra são as pessoas. E hoje, novamente reunidos à volta da mesa, voltámos a estar juntos. Porque casa é onde está o coração.

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O gesto mais bonito do mundo.

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Pintado à mão

Não sei opinar sobre a última criação do estilista que brilhou na Moda Lisboa, mudo de assunto sem terminar o anterior, nunca tentei cozinhar pato – mas há uma coisa que faço bem: agradecer.

Dou por mim a agradecer, constantemente, por todas a maravilhas que a vida me presenteia: o sol, a massa com queijo, a dor que não tenho. E as pessoas. As pessoas que a vida me dá.

Obrigada Andreia por me teres oferecido o presente mais bonito do mundo –  o que fiz eu? Escrevi. Escrevo porque amo escrever o que faz de mim egoísta, no fundo! E, mesmo assim, mereci tanto carinho teu. Eu e o Tiago, que te está tão grato por te teres também lembrado dele.

O meu ano começou tão bem. Graças tanto a ti.

Obrigada pelo gesto mais bonito do mundo.

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Corre para os teus sonhos – sem medos, sem manhas e sem merdas.

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Sou assumidamente um clichê. O maior de TODOS: Podem gozar à vontade mas esta semana vou inscrever-me no ginásio. Vou mesmo!

É em Janeiro que os ginásios têm mais gente (verdadinha!) porque todos têm exatamente o mesmo pensamento – é início do ano e queremos começar a dar tudo. E mesmo que esteja a agir como um enorme clichê, não me importo. Assumo que esta coisa de ser ano novo estimula-me a começar melhor e ou aproveitar isso para agachar qualquer coisa – agora vamos ver quanto tempo dura.

No ano passado, comecei o ano a comprar a viagem para a Ásia, usando isso como incentivo para trabalhar mais e melhor e resultou. Este ano, este é o estímulo – o desporto – porque, para já, uma viagem no género não me parece possível (mas nunca se sabe!). Se não posso correr para outro continente, corro na passadeira e já é bem bom.

Tenho outros planos na manga (o mais importante deles não posso contar já) e dou por mim, constantemente, a visualizar as ideias e os projetos. Sei que às vezes pareço uma tolinha a sonhar e a falar alto mas é meio caminho andado para acontecer. Crio imagens e foco-me nelas como se essa realidade já existisse.

Hoje, fiz um dos exercícios que mais gosto neste início do ano – escrevi na areia molhada palavras que não quero trazer comigo para 2019 como “medo” e “ansiedade”. E vê-las desaparecer com a água trouxe-me paz. Sei que devemos concentrar-nos no que queremos e não tanto no que não queremos mas, por um lado, gosto de não me esquecer da carga negativa que também trago comigo. Existe. E lembro-me dela porque preciso de não me esquecer de lhe tirar algum poder.

Desejo que sigam os vossos sonhos, sem medos, sem manhas e sem merdas. É o que desejo.

 

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Descobri que sou óptima a sabotar-me.

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Adormeci esta noite a pensar numa coisa: será que sou uma optimista irremediável? Será que, naturalmente, mando lixar tudo o que não interessa e é-me inata esta capacidade de acreditar, quase absurda?

Não. Nem pensar. Apesar de, na maioria das vezes, saírem-me pensamentos positivos, frases motivadoras, como se tivesse caído num raio de um caldeirão do optimismo, há um lado meu bem dark (ando a ver, viciada, uma série alemã com este mesmo nome, tinha de o colocar aqui) e que tenho mesmo dificuldade em ver de forma positiva: o meu corpo.

Apercebi-me disso e, sem dúvida, é algo que quero mudar. Não gosto de duvidar. Não preciso de estar sempre on e ligada à positividade mas magoa-me perceber como sou negativa e má em relação ao meu lado exterior. Por dar, desde sempre, pouca importância ao exterior, considerando fútil e desnecessário toda essa preocupação pelo corpo e aspecto, acabei por ser óptima a sabotar-me. E isso também não faz sentido. Acho sempre que não consigo correr o que os outros conseguem porque o meu corpo não aguentaria isso, que jamais vestiria aquela roupa porque a mim nunca me ficaria bem, que nunca poderia andar de tacões altos, porque de certeza que todos se iriam rir de mim, enfim, uma data de pensamentos inflamados que, por mais que considere de pouca relevância (sempre fui a miúda mais prática do mundo), acho que provam uma fragilidade minha. E se trabalho para me sentir bem por dentro, tenho de parar de me sabotar por fora.

Esse é um dos meus objetivos do novo ano: acreditar mais em mim. Ser o que defendo em todas as áreas da minha vida. Não só em algumas. Ser melhor comigo.

E um dia desfilo pela rua com o meu salto-cagão. Só mesmo porque posso.

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As pessoas não desaparecem. Apenas mudam de lugar.

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O tempo passa. Tão depressa, tão corrido, tão sozinho que sai de casa cedo, de manhã, e quando volta tarde, já passou. Os candeeiros mudam de ar, as casas caem, as famílias crescem mas as pessoas não desaparecem, apenas mudam de lugar.

E mesmo que a vida siga, não nos esquecemos. Não podemos, não queremos. Trazemos connosco em cada memória e no melhor de nós, cada gesto, cada riso, cada momento que nos presentearam. Os nossos, os nossos que nos cabem, que nos pertencem, que refletimos porque somos parte do que nos deram.

A vida passa corrida, não é? Leva-nos tudo e dá-nos sem pedir. É bonita mas exigente porque se sabe rara, se sabe sábia, se sabe como se fosse gente, exige presença, exige que se sinta. É preciso saber que as pessoas não desaparecem. Apenas mudam de lugar.

 

Cancro com humor_ Geral

Agradece – mas não te esqueças que também o mereces.

 

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Uma das coisas mais especiais do Cancro com Humor é saber que vocês têm, acompanhado, literalmente, o meu crescimento pessoal. Claro que não me viram a gatinhar nem a deixar a fralda mas quem por cá anda desde 2013 assistiu a tudo – ao progresso, aos falhanços, aos amores, aos projetos, aos desgostos, às dores, aos livros, às vitórias. Depois dos meus pais e irmãs, vocês têm sido os primeiros a saber das novidades.

Contei-vos, há algum tempo atrás, quando o Tiago entrou na minha vida e o amor voltou a fazer parte da minha alma, da minha casa. Tenho partilhado também o que temos vivido juntos com o “Se Podes Sonhar, Podes Concretizar” e mal espero para o dia em que tirar a fotografia mais cliché-e-pirosa-do-mundo com anel no dedo porque dei o sim 🙂 Faz tudo parte do sonho. Para ele estar por aqui, enquanto durmo e enquanto almoço, sei que tive de fazer a minha parte – tive de aceitar que ele aparecesse. Tive de aceitar que merecia amar e ser amada novamente.

Nunca duvidei que todas estas coisas me tivessem predestinadas – esse é o segredo. Fiz sempre de tudo para não me sentir culpada por estar viva. A sério que acho que, por vezes, mesmo que inconscientemente, carregamos connosco um peso por termos sobrevivido, desconfiando que sejamos merecedores de tal honra. Bem sei que temos a obrigação de fazer algo de jeito com as nossas vidas (também sinto essa pressão e não acho que seja, de todo, negativa) mas é preciso agradecer sem culpa e aceitar cada presente, como o amor. É preciso aceitar tudo o que nos acontece de bom porque o merecemos, porque aconteceu, porque ainda cá estamos. Não é fácil e esse sentimento de merecimento tem de ser trabalhado, diariamente, mas é possível.

Obrigada mundo por me deixares viver aqui mais um tempo, a rir, com o amor do meu lado, uma cama fofinha, uns sobrinhos saudáveis, uma saúde que se mantém, um trabalho que me realiza. Estou-te grata e sinto-me capaz de aceitar todas essas relíquias e ainda um par de botas no inverno.

Agradece mas não te esqueças que também o mereces.